Os vrttis saudáveis

“Se na sua relação com os outros você é feliz, afável e altruísta, os obstáculos diminuem. Se suas emoções são mesquinhas e sua mente é dada a julgamentos, os obstáculos aumentam.” Para ser mais preciso, o que Patañjali diz é que, para ter uma consciência serena, precisamos estar dispostos a mudar a maneira de nos comportar e relacionar com o mundo externo. Para o nosso próprio bem. Certos tratamentos, conhecidos como propriedades de cura e saúde da consciência, cultivam a mente e suavizam o caminho do iogue. São eles:

1. Maitri: Cultivar a amizade com as pessoas felizes.
2. Karuna: Cultivar a compaixão por aqueles que estão tristes.
3. Mudita: Cultivar a alegria pelos virtuosos.
4. Upeksa: Cultivar a indiferença ou neutralidade em relação aos que estão cheios de vícios.

Embora pareçam simples e até banais, esses quatro atributos são, na verdade, sutis e profundos. Você deve estar lembrado que, ao introduzir as perturbações emocionais, defini-as como falhas naturais que nos fazem dissipar energia. Isso significa que é preciso atrair a energia para dentro, ampliá-la por meio de técnicas de geração, contê-la, distribuí-la e investi-la internamente. Mas o que fazemos, de fato, é deixar que a energia escoe como que por uma peneira.

Sempre que tem inveja da felicidade e da sorte de alguém, você deixa vazar energia. “Eu é que deveria ter isso”, você diz, “Por que ele ganhou na loteria e eu não?”O ciúme, a inveja e o ressentimento empobrecem, tanto moral quanto energeticamente. Eles literalmente diminuem você.

Alegrar-se com o bem-estar alheio é participar das riquezas do mundo. Quando mergulhamos nossa taça no infinito, ficamos ricos, mas o infinito não se reduz. Quando contempla o pôr-do-sol, você se preenche com sua beleza, mas ele se mantém tão belo quanto antes. Quando se ressente da felicidade dos outros, você perde até o pouco que tem.

Pior do que isso. Quando julga com rigor os defeitos que vê no outro, quando condena e desdenha as pessoas dominadas pelo vício e usa sua desdita para sentir-se superior, você está envolvido num jogo perigoso. “Agradeço a Deus por não estar nessa situação”, é assim que você deveria agir. Do contrário, prepare-se para o tombo. Além disso é cansativo perder tempo reprovando os outros. Isso cria no ego uma couraça de falso orgulho e certamente não ajuda em nada a pessoa que você está censurando. A compaixão pelo sofrimento alheio é mais do que mera simpatia. A solidariedade superficial que expressamos pelo outro quando assistimos ao trágico noticiário na TV, por exemplo, geralmente não é mais do que o desejo de nos sentir bem, uma forma de subornar a consciência. “Sou uma pessoa sensível e de bons sentimentos”, dizemos. Sem ação, isso não passa de autocomplacência.

É uma ilusão dos tempos modernos imaginar que as emoções positivas, a solidariedade, a piedade, a bondade e a boa vontade geral, porém difusa, são equivalentes as virtudes. Essas emoções “ternas”podem servir como uma forma de auto complacência narcisista. Geralmente são impotentes. Elas nos fazem sentir bem, como quando damos uma moeda a um mendigo. Criam a ilusão de saúde e bem-estar. A sensibilidade deve ser usada como instrumento diagnóstico, não como espelho para a vaidade pessoal. A verdadeira compaixão é potente, pois traz implícita a pergunta: “Como posso ajudar?”.

Emoções positivas e virtude são duas coisas diferentes. Virtude é valor, coragem moral, persistência na adversidade, proteção dos fracos contra a tirania dos fortes – não a solidariedade de um aperto de mão caloroso. Compaixão é o reconhecimento de que somos iguais, idênticos aos outros. Ela é potente e prática.

Do mesmo modo, a virtude dos outros não é uma censura à nossa inadequação, mas um exemplo edificante. Não só os grandes, como Gandhi, têm esse papel. Quando vê um esportista ganhar um troféu e falar de sua vitória com modéstia e gratidão, demonstrando generosidade com seus adversários, você também não de deleita com seu comportamento virtuoso? Esses atributos de cura são jóias que enchem de graça nossa vida e consciência.

Por B.K.S. Iyengar no livro Luz na Vida

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