Aparigraha – não-possessividade.

Aparigraha é o quinto yama – proscrição ética – descrito por Patañjali no Yoga Sutra. Significa não-possessividade ou desapego.

Quando não entendemos corretamente esse preceito ético, podemos confundir o desapego com uma atitude de desdém em relação às pessoas e objetos, ou com uma atitude de repreensão dos nossos desejos e sentidos. Desapego, porém, não é isso.

Segundo Vyása, comentarista do Yoga Sutra: “aparigraha significa desistir de cobiçar, considerando que a cobiça e o acúmulo causam problemas, que a coisas estão sujeitas à decadência e que a associação a elas causa desconfiança e rancor”.

Muitas vezes projetamos nossa felicidade em um carro, uma casa, em um relacionamento, em uma conta bancária, etc; tendo a cresça que isso irá finalmente nos completar. É comum pensarmos que a vida só estará completa depois de satisfazer tais desejos. O problema é que quando o desejo é finalmente satisfeito, passado algum tempo, pessoa volta a se sentir incompleta e infeliz.

O yoga nos ensina que já somos seres completos, e não precisamos de nada do mundo exterior para nos sentir plenos. O desapego entra justamente nesse sentido de ver as coisas como elas realmente são, sem projetar expectativas ou anseios sobre elas. Olhar para um relacionamento, por exemplo, como uma oportunidade de crescimento pessoal, não como a fonte da felicidade. Perceber que não somos dono de nada e de ninguém, suavizar a ideia de posse.

Encontramos também na Bhagavad Gita trechos que se referem a não-possessividade, como um dos valores a ser alcançado a fim de preparar a mente para o conhecimento que leva à liberdade, moksa.

Asakti é um desses valores, e significa a ausência de posse. Segundo Swami Dayananda, no livro “O valor dos Valores”, o “desapego é descoberto quando se vê com clareza que não existe ligação duradoura ou válida com qualquer coisa, isto é, que não existe legítima propriedade de nada.

Para elucidar essa questão, Swami Dayananda dá um exemplo interessante. Conta que certa vez foi visitar um amigo que tinha comprado um apartamento. O amigo dizia com convicção: “Este é meu. Este é o apartamento que possuo”.

Então Swamiji começou a perguntar: “Você possui a terra?
– Não, a terra é de uma sociedade cooperativa de gerenciamento.
– Você possui o chão desse apartamento?
– Não, o chão é o teto da pessoa de baixo.
– Você possui o teto?
– Não, o teto é o chão da família de cima.
– E quanto às paredes?
– Bem, as paredes internas são divididas com os outros apartamentos. A parede externa, é lógico, pertence a todo edifício como parte de sua estrutura de sustentação.
– Então, o que você possui?
– Bem, Swamiji, possuo o espaço, respondeu o amigo.

Esse exemplo simples mostra com clareza que não somos dono de nada. O máximo que podemos ter é a posse temporária desse apartamento, e desfrutar disso. Ao suavizar a ideia de propriedade nossa mente relaxa, fica em paz, pois percebemos que não podemos perder nada, já que não somos donos de nada.

Desapego, portanto, não traz sofrimento, mas sim uma sensação de alívio ao perceber que já somos livres e completos e não precisamos possuir algo ou alguém para nos sentir plenos.

Namaste! Gabriela Z Reis

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