O nascimento de Kṛṣṇa

Hoje é comemorado o nascimento de Kṛṣṇa, considerado uma encarnação divina e uma das formas de Deus mais populares da Tradição Védica, conhecido e cultuado hoje em dia em todas as partes do mundo. Kṛṣṇa é considerado uma encarnação de Deus, um avatāra (do sânscrito, lit. “descida”), alguém que esteve realmente presente entre nós, tendo inclusive os episódios da sua vida descrito nas escrituras. É, contudo, irrelevante se acreditamos ou não em Kṛṣṇa como uma encarnação divina com uma realidade histórica para o adorarmos como uma personificação de Deus. Isso realmente não vem ao caso. A única coisa que importa, para que a devoção funcione e faça os seus milagres, é que sintamos uma conexão com a sua figura e com toda a mística devocional que a envolve.

Mas tal é a natureza do intelecto humano que ele pode tornar-se um obstáculo para a devoção. Pois, se para o coração a ideia de encarnação divina é algo muito desejável e até natural, para o nosso intelecto ela se apresenta como um terrível desafio. Como é possível que Deus, a absoluta e imutável realidade que permeia toda a criação, nasça como uma criatura? É uma questão tão complicada que mereceu explicações do próprio Senhor Kṛṣṇa, que assim falou a seu querido amigo e discípulo Arjuna, na Bhagavad-Gītā:

ajo’pi sann avyayātmā bhūtānām īśvaro’pi san ।
prakṛtiṁ svām adhiṣṭhāya sambhavāmyātma-māyayā ॥ 4-6 ॥

Apesar de ser livre de nascimento, imperecível e Senhor de todos os seres, tendo sob controle o meu poder de manifestação eu tomo nascimento por meio da minha própria Māyā.

Deus não pode nascer como um indivíduo, jīva, porque um nascimento tem como causa karmas passados, que por sua vez têm suas raízes na ignorância fundamental, avidyā. Deus, o ser onisciente, não possui ignorância. Não possuindo ignorância, não possui karmas – méritos e deméritos – e, não possuindo karmas, não possui a causa empírica necessária para um nascimento. Mesmo assim, Kṛṣṇa aparece aos olhos do mundo, filho de Devakī e Vasudeva, segurando sua flauta ou as rédeas dos cavalos da carruagem de Arjuna, em pleno campo de batalha de Kurukshetra. Como explicar, em termos de realidade, esse nascimento? Deus realmente nasce como um indivíduo, assim como eu ou você, ou o seu nascimento é de algum modo diferente?

Usamos a palavra real para nos referirmos àquilo que nossos olhos veem, nossas mãos tocam; aquilo que, enfim, está publicamente disponível para a transação empírica. Agora, por exemplo, digo que estou realmente escrevendo este texto, em um computador real, e vou publicá-lo em um site real da internet real. O termo real, aqui, qualificando todas essas coisas, indicam que elas não estão disponíveis apenas para mim, na minha mente, mas possuem um validade empírica, disponível para a transação intersubjetiva. Isso significa que esse texto escrito por mim pode ser lido por você, você pode indica-lo para seus amigos e esclarecer dúvidas sobre ele mandando perguntas para mim.

Entretanto, ter validade empírica não é padrão para qualificarmos algo como real. Real é aquilo que existe sempre, da mesma forma, independente de quaisquer condições. Nada no chamado “mundo real”, entretanto, possui essa característica. Ao contrário, tudo que vemos e tocamos não existe por si mesmo, mas deriva sua existência de outra coisa. Um copo de vidro certamente não é inexistente, porque contém a água. No entanto, ele não existe realmente pois deriva sua existência do vidro. Tire o vidro e nada resta do suposto copo. Portanto, o copo, apesar de possuir uma existência empírica, vyāvahārika-satta, não possui existência real ou absoluta, pāramārthika-satta.

Mesmo não sendo absolutamente real, a existência empírica é diferente de uma existência meramente subjetiva, prātibhāsika-satta, que só existe como uma projeção na mente de um sujeito, indisponível para a transação empírica. A cobra vista erroneamente em um pedaço de corda no chão não pode picar o sujeito que a vê, ainda que ela tenha alguma realidade para ele, que de fato se assusta e foge como se ela estivesse realmente ali. Mas a sua espécie não está classificada nos manuais de biologia, o soro contra o seu veneno não está disponível no Instituto Butantan. O seu nascimento não exigiu outra cobra, tempo de gestação, eclosão de um ovo ou quaisquer outros encadeamentos causais empíricos. Exigiu apenas que o sujeito a visse. Ela existe apenas enquanto é vista, diferente de uma cobra real que está lá mesmo que você não a veja e não desaparece simplesmente por você esfregar os olhos.

Podemos falar, assim, em três níveis de realidade: absoluto, pāramārthika, empírico, vyāvahārika, e subjetivo ou aparente, prātibhāsika. A pergunta é: a qual desses níveis pertence o nascimento de Kṛṣṇa?

Do ponto de vista da realidade absoluta não existe nascimento, nem mesmo para um indivíduo. Quando Kṛṣṇa diz, “ajo’pi san avyayātmā – apesar de ser livre de nascimento e imperecível”, ele está se referindo a sua natureza absoluta, à consciência livre de atributos e imutável que é a natureza de Deus e também do indivíduo. Um sábio também pode dizer, “ajo’pi san avyayātmā”, porque ele, assim como Kṛṣṇa, conhece sua natureza real.

Mas o sábio não veio ao mundo sábio. Ele adquiriu conhecimento em vida, o que significa que ele nasceu ignorante, por força da lei do karma. Tendo nascido com o status de ser um indivíduo, o sábio ganha o conhecimento em vida e se torna um jīvanmukta, alguém liberado enquanto está vivendo, isto é, enquanto o karma que deu origem ao seu corpo ainda não se esvaiu. O nascimento do sábio – assim como o nascimento de qualquer pessoa – é empírico porque é causado por força do karma.

Mas Kṛṣṇa, sendo Īśvara (“īśvaro’pi san”), o Senhor de toda a criação, não vem ao mundo ignorante, forçado pela lei do karma. Ele mesmo diz, “prakṛtiṁ svām adhiṣṭhāya – tendo sob controle meu próprio poder de criação”, significando que seu nascimento não está sendo determinado por força do karma, porque Īśvara, aquele que tudo controla, não pode estar submetido a nenhuma outra força ou causa diferente dele mesmo.

Kṛṣṇa prossegue dizendo que, não estando preso a lei do karma para nascer, “sambhavāmyātma-māyayā – eu venho a ser (nasço) por meio da minha própria māyā”. Māyā ou prakṛti é o poder de manifestar todas as coisas. Todas as leis que controlam o universo, que determinam como cada coisa se comporta seguindo certa necessidade, são expressões desse poder. A realidade empírica de uma coisa está relacionada a sua interconexão com as outras coisas seguindo certas leis de causa e efeito previamente determinadas. Mas Kṛṣṇa, segundo ele mesmo diz, não está submetido a essas leis, mas as controla, tem elas nas suas mãos, preside sobre elas (adhiṣṭhāya).

Isso quer dizer simplesmente que o nascimento de Kṛṣṇa também não tem realidade empírica, já que isso implicaria que ele tivesse nascido por força do karma, independente da sua vontade ou controle, assim como se dá com o nascimento de qualquer indivíduo. Também, caso seu nascimento fosse empírico ele estaria submetido a méritos e deméritos, puṇya e pāpa, o que seria absurdo para Īśvara.

Assim, Īśvara não é condenado ao status de ser um indivíduo (jīvatva) simplesmente porque nasce no mundo em um dado corpo, porque seu nascimento é meramente uma aparência, prātibhāsika. Prātibhāsika significa que, ainda que todo mundo o visse sentado na carruagem de Arjuna em pleno campo de batalha, o corpo de Kṛṣṇa era puramente māyā, como o truque de um mágico que, tendo sob seu controle o poder de ilusão, faz todo mundo ver uma mulher ser serrada ao meio e dividida em dois sem que isso tenha de fato acontecido.

Todavia, ainda que não seja por força do seu próprio karma passado, existe uma razão para que o Senhor apareça como que encarnado entre nós. É dito nas purāṇas que, antes de “descer” para a terra, existe uma petição coletiva na forma das orações de grande parte dos jīvas (incluindo até mesmo os devas) exigindo que Īśvara tome uma providência. Essas orações seriam o puṇya que causa o aparecimento de Deus na terra para cumprir certas funções que, basicamente, se resumem no restabelecimento do dharma. O próprio Senhor Kṛṣṇa diz:

yadā yadā hi dharmasya glānirbhavati bhārata ।
abhyutthānam adharmasya tadātmānaṁ sṛjāmyaham ॥ 4-7 ॥

Ó Bhārata (Arjuna), sempre que há um declínio do dharma e um aumento do adharma eu tomo um nascimento.

Desejamos, assim, lembrando as doces e profundas palavras do próprio Senhor, um feliz Kṛṣṇa Janmāṣṭamī a todos. Hare Kṛṣṇa!

Por Vedanta Online

krishna1

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