Há gurus por toda parte… porém, olhos abertos!

Originalmente, a palavra guru – de origem sânscrita – era empregada para aquela pessoa na condição de mestre/professor que poderia conduzir um discípulo/aluno em seu desenvolvimento espiritual com intuito de alcançar a iluminação. O significado da palavra é: aquele que remove a escuridão.

A palavra é empregada atualmente nos mais diversos contextos, ouvimos por aí todas e quaisquer denominações possíveis associadas à palavra guru, como por exemplo guru da dieta, guru da informática, guru da comunicação… enfim, qualquer área de conhecimento hoje em dia tem o seu guru.

Com a popularização das práticas de autoconhecimento nos últimos anos, a palavra guru voltou a ser associada ao seu significado original e junto disso vimos surgir as mais diversas figuras tentando se passar por guias espirituais. Enquanto alguns desses tipos são deflagrados facilmente, outros são mais difíceis de serem reconhecidos e acabam arrastando multidões aos seus encontros além de geralmente estarem associados à grandes riquezas, escândalos sexuais ou diversas outras farsas. O problema é que em muitos desses casos, suas imagens não são afetadas por tais falsidades e eles continuam por aí pregando através de suas palavras bonitas e discursos bem construídos.

A verdade é que esses falsos mestres se aproveitam da frágil situação mental e espiritual de muitas pessoas que acreditam ter encontrado um “caminho alternativo” àquele regido pela sociedade e buscam conforto para suas aflições nos ensinamentos daqueles que aparentam ser seres mais evoluídos espiritualmente. Na maioria dos casos, se forem mestres de palavras dóceis, engraçados, aparentemente inteligentes e principalmente, indianos, melhor ainda!

O documentário KUMARE é um ótimo exemplo de como estamos à mercê deste tipo de pessoa e como a busca cega por alguém que possa nos guiar pode ser algo muito desastroso caso não tivermos um olhar mais crítico.

No filme o cineasta americano Vikram Gandhi, descendente de indianos, fez-se passar por um guru indiano recém-chegado aos Estados Unidos e para isso passou um tempo de estudos na Índia onde aprimorou seu sotaque e pegou alguns trejeitos indianos. Ele começou a ensinar práticas meditativas, Yoga e filosofia; e em pouco tempo tinha diversos seguidores. O fato desconcertante da história é que Vikram fez questão de inventar tudo aquilo que estava ensinando, desde as meditações, os asanas e até mesmo nos ensinamentos filosóficos ele repetia continuamente aos alunos que tudo aquilo era uma ilusão e que não deveriam acreditar no que estavam vendo. Na maioria dos momentos o documentário tem um tom engraçado e proporciona alguns risos, mas em boa parte do filme ficamos constrangidos ao ver as pessoas deixarem serem levadas por toda a teatralidade do documentarista. Há um momento que deixa muito claro como nossa fé pode ser muito cega e como o véu da ilusão que nos cerca pode ser muito mais espesso do que imaginamos, em que o falso guru visita um seguidor e monta o seu altar no quarto com a imagem de Osama Bin Laden ao lado do presidente Obama e pede para o seguidor usar essas imagens para meditar na dicotomia que experimentamos em nossas vidas, para refletir sobre o que considerados bom e mal, certo e errado.

O filme é muito interessante e proporciona boas reflexões acerca desta nossa busca por mestres dentro do universo do Yoga ou de qualquer outra prática espiritual, religião ou caminho escolhido para se desenvolver. Até pouco tempo ele estava disponível no Netflix, no entanto segundo informações da empresa, o contrato de cessão dos direitos expirou e possivelmente será renovado em breve.

Para finalizar gostaria de mencionar que Swami Vishnudevananda, discípulo de Swami Sivananda, divide os professores em três tipos, utilizando as denominações dos três gunas: Sáttvicos, Rajásicos ou Tamásicos.

Os professores do tipo Sáttvicos seriam os grandes mestres que a humanidade já presenciou e em comum tem o fato de não serem compreendidos pela grande massa da população durante sua existência e terem suas mensagens difundidas posteriormente por seus discípulos.

Os professores do tipo Rajásico podem ser identificados pelo fanatismo, pela teatralidade, por se vestirem de maneira chamativa com intuito de chamar a atenção de seus seguidores. Aliás, esses professores não possuem discípulos, e sim seguidores, pois não disciplinam ninguém apenas desejam receber elogios e serem obedecidos. Podem ser identificados por anunciarem sua própria iluminação e não praticarem aquilo que pregam.

Os professores Tamásicos são na verdade pervertidos que lidam todo tipo de conhecimento vulgar e abertamente fazem ou desejam mal às outras pessoas.

Achei muito interessante (e recomendo) ler o artigo O Texto do Guru do professor Pedro Kupfer e ver muitas semelhanças na maneira de identificar um falso guru.

Eles estão por toda parte, é só apurarmos um pouco o olhar.

Rodrigo Furuta

2 Responses to “Há gurus por toda parte… porém, olhos abertos!”

  1. Andrea Moll Tambellini

    Muito bom o texto, define bem o que vemos no documentário ! Namastê !

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  2. Ótimo texto Rodrigo. É isso que mais tenho visto. Aí surge uma dúvida. Devemos alertar as pessoas ou deixa-las descobrir sozinhas o falso mestre? Om.

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