O YOGA DO JULGAMENTO

Existe uma sorte de consenso, em alguns círculos de praticantes de Yoga, que diz respeito ao fato de que julgar seria algo notadamente ruim. Assim, diz-se que não devemos julgar a nós mesmos e, muito menos, dirigir julgamentos aos demais ou ao que eles fazem.

Nesse sentido vemos que acontece em relação à palavra julgamento, a mesma distorção que testemunhamos em relação à palavra karma: muitas vezes, esse termo é usado para se referir aos frutos de uma ação, notadamente os indesejáveis quando, a bem da verdade, karma significa apenas “ação” e é uma palavra totalmente neutra.

Se você tiver curiosidade, poderá colocar, num mecanismo de pesquisa na internet, as palavras julgamento + Yoga e ver o que acontece: irá achar vários textos escritos por professores que nos recomendam não julgar. Fiquei me perguntando donde teria surgido essa ideia, uma vez que nada parecido com o não-julgamento aparece nos śāstras, as escrituras do Yoga.

Se formos tomar como ponto de referência o Yoga Sūtra de Patañjali, por exemplo, chama-nos a atenção a quantidade de vezes que aparece o termo viveka, que se traduz como discernimento e poderia ser considerado um sinônimo de julgamento correto.

Cabe então a pergunta: o que seria, exatamente, julgar? O Dicionário Houaiss nos esclarece: “Emitir parecer, opinião sobre (alguém ou alguma coisa); formar conceito, opinião (julgar um escritor) (julgaram ele em função de seus comentários) (a história ainda o julgará merecedor das glórias que lhe faltam em vida) (não se deve julgar levianamente). Decidir, após reflexão; considerar (julgaram que o melhor era desistir)”.

Então, se julgar, como nos diz o dicionário, é tomar uma decisão depois de haver refletido ou ponderado sobre uma situação, ou formar uma ideia, esse termo deve ser algo neutro e desprovido da negatividade que observamos no discurso daqueles professores. Ora, não julgar é algo absolutamente impossível. Então, o problema não é o julgamento, mas o que fazemos com ele.

Julgar adequadamente é sinal de saúde mental. É o indicador de que o nosso psiquismo funciona bem. Se, por exemplo, eu não souber julgar corretamente a distância ou a velocidade que mantenho em relação ao próximo carro na estrada, posso provocar um grave acidente realizando uma ação banal como dirigir.

Julgando o julgador

Mesmo assim, julgar, no meio do Yoga, é considerado um ato antiético e, paradoxalmente, o julgador é julgado negativamente. O problema que identificamos nesta situação é que, quando se desestimula o olhar crítico e se julga desabonadoramente o julgamento, essa atitude pode servir como um escudo que muitas vezes é usado para justificar algo errado ou frontalmente contrário ao dharma, o princípio do bem comum.

À luz dessa ideia, ouvimos, perante uma pessoa que esteja fazendo algo errado, comentários do tipo “essa é a verdade dela”, como se um desvio de conduta ou um valor subjetivo pudessem se impor ao bem comum ou ao direito dos demais.

Somos da opinião de que isso seja totalmente errado, uma vez que não existem verdades diversas. Podem existir preferências diferentes, prioridades diferentes, crenças diversas, mas só há uma verdade, e ela inclui sempre a compaixão, o respeito, a gentileza, a consideração e a aceitação dos demais.

Uma afirmação consensual não será, necessariamente, verdadeira. Historicamente falando, o consenso nem sempre coincidiu com o que é certo. Até não muito tempo atrás, havia um consenso sobre o fato da escravidão ser algo aceitável. O mesmo vale em relação ao sexismo, à homofobia e à corrupção, que são tarefas ainda pendentes na nossa sociedade.

Se, por um lado, eu escuto o meu professor de Yoga dizendo que “é errado julgar” e, por outro, percebo que não consigo parar de julgar, esse descompasso entre o que ouço e o que sinto pode provocar em mim um conflito interno. Para que essa frase fizesse sentido, deveríamos acrescentar a ela algumas palavras. Assim, poderíamos dizer “é errado julgar precipitadamente”, ou ainda, “é errado julgar negativamente sem levar em consideração o contexto adequado”.

Se aceitarmos o fato de que julgar é o ato natural de uma mente saudável, eliminamos a tensão desnecessária e o eventual conflito se resolve. Olhando para o nosso psiquismo dessa maneira, ficamos em paz com seus conteúdos.

Julgamento, gosto e aversão

O julgamento é uma das vozes ou formas de buddhi, a inteligência humana. Quando fazemos afirmações como a do dicionário: julgaram ele em função de seus comentários, esse tipo de afirmação é feita por buddhi a nossa inteligência. Na livre associação que possa surgir dessa frase, o próximo pensamento poderia ser eu gostei, eu não gostei ou ainda, isto me resultou neutro. Este tipo de pensamento nos quais haja uma autorreferência é a voz do ego. Ela sempre está relacionada com uma lista pessoal de valores subjetivos, gostos ou aversões.

Para esclarecer quais são os diferentes tipos de conteúdo mental, citemos o grande mestre Śaṅkarācharya, que define o psiquismo nos seguintes termos:

“Antaḥkarāṇa, o órgão interno, é chamado por quatro diferentes nomes: manas, buddhi, ahaṅkāra e chittam, de acordo com suas distintas funções. Quando há um movimento de ponderação de prós e contras, isso é chamado manas, pensamento. Buddhi é a propriedade que determina a veracidade dos objetos. Ahaṅkāra, o ego, é a identificação com o corpo como sendo o Ser. Quando acontece uma lembrança, isso é chamado chittam.” Vivekachūdāmaṇi, 93-94.

Em nenhum lugar, dentro deste texto o noutros, Śaṅkarācharya e outros autores importantes como o próprio Patañjali, afirmam que o julgamento seja algo nocivo ou indesejável. Tentar reprimir este tipo de conteúdo, por outro lado, é uma batalha que já começa perdida: estes conteúdos não são apenas naturais como também necessários para nos posicionar perante o mundo e viver e sobreviver nele.

Não é errado observar e discernir. Não é errado cultivar o espírito crítico. Não é errado, baseando-nos na observação e no discernimento, tomar a decisão de nos afastar de alguma situação que tenhamos interpretado como indesejável ou contraproducente. Em suma, o julgamento correto é essencial para a autopreservação.

Em muitos momentos do cotidiano, a nossa saúde e integridade física dependem diretamente de fazer um julgamento adequado seguido de ações também adequadas, como por exemplo quando atravessamos uma rua, descemos uma escada ou escolhemos executar um āsana.

O brahmācharya da palavra

Então, será que existe alguma maneira saudável de nos relacionar com nossos julgamentos? Acredito que sim. Em primeiro lugar, devemos cultivar uma atitude de desapego em relação a este tipo de pensamento. Isto significa, concretamente, considerar que muitas vezes o julgamento terá um valor relativo e pode estar sujeito a reavaliações ou ajustes, se for o caso. Aferrar-nos com unhas e dentes a uma opinião pode nos levar a erros e situações de sofrimento desnecessário.

Por outro lado, em prol da purificação do psiquismo, um processo fundamental no Yoga que se chama antaḥkaraṇa śuddhi, é necessário e desejável fazermos um exercício que poderíamos chamar de continência verbal, ou brahmācharya da palavra: se o julgamento for abonador, elogioso, compassivo, amistoso, pacífico ou neutro, temos todo o direito de expressá-lo em público.

Se, pelo contrário, o julgamento tiver potenciais conteúdos conflitivos, críticas desmedidas, desnecessárias, ou que possam machucar alguém, seria melhor ficarmos calados, guardando esses conteúdos para nós mesmos. Porém, isso não significa fecharmos os olhos ou ficar calados e indiferentes perante o que é errado desde o ponto de vista ético.

O exercício que propomos aqui é para desenvolver e treinar uma mente tranquila e objetiva, onde predominem pensamentos harmoniosos. Para isso acontecer de maneira saudável, podemos sublimar a tendência a falar mal dos demais, por exemplo, cantando mantras ou cultivando o silêncio compassivo.

Pratipakṣa bhāvana: a convivência com o oposto do indesejável

Esta é uma prática muito poderosa e eficiente que Patañjali chama no Yoga Sūtra (sūtra II:33) pratipakṣa bhāvana e que consiste no seguinte: “quando surgirem pensamentos indesejáveis, estes podem neutralizar-se convivendo-se com seus opostos” (vitarkabādhane pratipakṣabhāvanam).

Vencer a tendência natural a se deixar arrastar pelo julgamento precipitado é um passo importante na caminhada que é o Yoga. Se meu problema for julgar levianamente, posso resolvé-lo de maneira eficiente quando exerço esta continência verbal. Isto quer dizer evitar o primeiro impulso para verbalizar uma ideia antes de que a análise de todos os fatores tenha sido concluída, para verificar se a minha apreciação coincide com a realidade dos fatos.

E, depois de guardarmos para nós mesmos esse tipo de julgamento, poderíamos fazer ainda um exercício de aceitação da situação, reconhecendo que cada pessoa faz sempre seu melhor dentro das circunstâncias que lhe cabem, ainda quando as ações pareçam ter sido feitas de maneira deliberadamente errada.

Assim, exercendo essa autodisciplina que nasce da continência e do esforço sobre mim mesmo, da minha motivação pela superação e do foco que mantenho na prática, fortaleço e purifico meu psiquismo e minha força de vontade.

No início, este exercício poderá nos parecer difícil, dada a imensa força dos condicionamentos, porém, se quisermos ter uma ideia de a quantas anda a nossa evolução e o nosso crescimento emocional, este é um bom termômetro: conseguimos, de fato, evitar o impulso de nos queixar desnecessariamente ou de falar mal dos demais?

O resultado do pratipakṣa bhāvana é tornar a mente sattvika, i.e., equilibrada, harmoniosa e construtiva, de maneira que ela seja nossa aliada no crescimento interior. Essa mente purificada, por sua vez, nos ajudará a viver uma vida tranquila e dentro do dharma, o princípio da harmonia universal. Boas práticas!

नमस्ते Namaste!

Pedro Kupfer

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