Porque sofremos?

O Yoga Sūtra de Patañjali é uma obra composta de 196 aforismos e é uma das grandes referências para quem estuda o Yoga. O capítulo II comenta sobre a prática (Sādhana Pāda) e nos apresenta de forma muito clara os 5 tipos de kleśas.

Kleśa significa sofrimento, aspecto doloroso da consciência, aflição, miséria existencial.

Essas aflições quando manifestadas potencializam o desequilíbrio de certos atributos (gunas), modificando dessa forma o fluxo de causa e efeito, se refletindo nos frutos das nossas ações. Elas são: ignorância (avidyā), egoísmo (asmitā), apego (rāga), aversão (dvesa) e medo da morte (abhiniveśa).

A ignorância (avidyā) é a causa dos outros quatro kleśas.

Eles existem em vários estados: latente, atenuado, intermitente ou ativo.

Se apresentam de três diferentes formas:
– Ādhidaivika: aquele que surge das forças da natureza.
Ex: Tsunami, terremoto, tempestades, indundação, etc.
– Ādhibhautika: aquele que nasce dos relacionamentos.
Ex: Não aceitarmos as pessoas como elas são.
– Ādhyātmika: aquele que vem de dentro, ou seja, já está na pessoa na forma de condicionamentos ou crenças limitantes.
Ex: Achar que um determinado objeto possa nos dar a felicidade que tanto buscamos.

Quando compreendemos que o fruto do nosso sofrimento é proveniente da nossa ignorância (conhecimento errôneo), o único antídoto para nos livrarmos dele é o conhecimento. A causa do sofrimento se dá unicamente por uma má compreensão do real significado das coisas (ilusão). Através do conhecimento podemos distinguir o que realmente nos torna feliz e satisfeitos, saber as coisas que podemos modificar daquelas que não podem ser modificadas.

É necessário sempre investigarmos o que motiva a nossa insatisfação. Quando lutamos por algo devemos ter em mente, antes de tudo, que essa é uma luta interna. Certas tentativas de mudanças e conquistas se tornam inúteis quando elas apresentam as suas próprias limitações. Isso pode representar uma grande perda de tempo e energia, que poderíamos estar direcionando para mudanças realmente úteis.

Aceitarmos as coisas como elas são não significa ser compassivo com tudo, mas aceitar uma dada situação como ela é. Achar que podemos adquirir, controlar e modificar o mundo e os outros é um grande equívoco, uma grande falta de maturidade emocional. Por exemplo: Quando programamos o nosso dia e as coisas começam a dar erradas, o que adianta ficarmos nervosos e procurando achar culpados para os nossos problemas? Com certeza essa postura não vai mudar nada e de bônus vamos estar gerando uma bela úlcera no nosso estômago.

Se compreendemos isso passamos a trabalhar a “acomodação” (estado de kśanti) frente as diferentes situações apresentadas para nós. Saber se acomodar é uma arte de se viver bem. Somente através da prática constante podemos modificar esse padrão. Isso representa uma maturidade emocional.

A maturidade emocional se reflete na compreensão que existe uma ordem (Íśvara), uma inteligência que faz com que as coisas aconteçam e sejam exatamente da forma como são. Implica também na verdadeira compreensão dos valores e numa postura ética em relação a eles. Isso nos da a condição de agirmos e fazer o que é apropriado sempre que possível (dharma), além de vivermos uma vida onde os problemas passam a ser basicamente relativos.

Por Vicente Morisson
Publicado originalmente no blog Vedanta, Yoga e o Mar

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