Vinyasa

IMG_3625É comum vermos a palavra yoga associada ao termo ‘vinyasa’. Ainda que essas duas palavras tenham tradicionalmente um vínculo bastante estreito, muitas vezes elas são usadas sem que haja realmente um conhecimento acerca de todas as implicações desse vínculo.

A palavra vinyasa significa literalmente “colocar em ordem”, “dispor em sequência”. Em yoga, o nome é em geral usado para indicar o modo como uma postura, asana, deve ser feita passo a passo, e também o modo como uma prática de vários asanas deve ser construída, tendo em vista algum objetivo específico.

O conceito de vinyasa em yoga está diretamente ligado ao par de conceitos sthira-sukham, estabilidade e conforto, que constituem a definição de asana de acordo com os Yoga-Sutras. Um asana é uma postura estável (sthiram) e confortável (sukham) assumida pelo corpo, na qual o praticante se concentra em certos aspectos da respiração e do próprio corpo, tendo em vista diferentes propósitos. Um asana também é a postura sentada do corpo para a prática da meditação, na qual o foco está voltado exclusivamente aos pensamentos.

Estabilidade e conforto, em yoga, não são negociáveis. Isso significa que o corpo de uma pessoa deve estar fisicamente preparado para a postura que ela irá realizar, para que possa realizá-la preservando a estabilidade e o conforto. Isso é garantido por meio do vinyasa.

Vejamos o caso da invertida sobre a cabeça, shirshasana, como ilustração exemplar. Nessa postura, a região cervical recebe uma grande carga de peso do corpo inteiro, que fica de ponta-cabeça. É muito claro que se uma pessoa colocar a cabeça e as mãos apoiadas no chão e simplesmente jogar o corpo para cima ela muito provavelmente se machucará. No entanto, o vinyasa correto para a postura exige que a pessoa, com o topo da cabeça e os dedos dos pés no chão, eleve lentamente as duas pernas esticadas até chegar na invertida total, o que é bastante difícil de se fazer e exige grande firmeza dos músculos das costas, abdômen, ombros, pescoço e braços como um todo. Para sair da postura, ela deve descer as pernas da mesma forma até os pés tocarem o chão com suavidade. Todos os movimentos estão sincronizados com uma respiração específica.

O que esse vinyasa garante é que o corpo da pessoa está de modo geral preparado em termos de força e flexibilidade para permanecer algum tempo na postura de inversão sobre a cabeça com estabilidade e conforto, e com poucos prejuízos físicos, que serão ainda atenuados com a prática das contra-posturas necessárias – que fazem também parte do vinyasa daquela prática como um todo.

Caso a pessoa não consiga realizar a subida das pernas da maneira proposta, isso significa que o corpo dela não está preparado em termos de firmeza e flexibilidade para realizar a postura, e portanto ela não a realiza. Ela não é instruída a jogar as pernas para cima e realizar a postura de qualquer maneira. O que ela deve fazer é praticar por um tempo uma série de asanas que construam nela lentamente a força e flexibilidade necessárias para realizar o vinyasa da invertida sobre a cabeça. Isto é, caso ela realmente precise fazer essa postura. É assim que funciona.

Quando dizem, como muitos de nós já ouvimos, que shirshasana é o rei dos asanas, isso só significa que a realização correta dessa postura exige um preparo físico tão completo das várias partes do corpo que ela pode ser considerada uma coroação da prática dos asanas. No entanto, sem entender o conceito de vinyasa, as pessoas acham que simplesmente ficar sobre a cabeça é uma coisa muito boa por si mesma, o que está longe de ser verdade, e os praticantes com lesões cervicais crônicas advindas da prática regular inadequada desse asana são uma prova disso.

O conceito de vinyasa não é aplicado somente a uma dada postura isolada e ao modo de se entrar e sair dela, mas a toda a prática na qual a postura está inserida. Existem etapas prévias a serem cumpridas como preparação para uma postura principal, e etapas posteriores a serem realizadas como forma de atenuar quaisquer prejuízos físicos trazidos naturalmente pela permanência naquela postura. Tudo isto tendo em vista sthiram e sukham, estabilidade e conforto.

Os vinyasas também podem e devem ser adaptados de acordo com a capacidade do praticante. Por exemplo, se uma pessoa não consegue expirar e flexionar o tronco a frente com as pernas esticadas – que é a maneira clássica de se fazer uttanasana – o professor tem o dever de instrui-la a flexionar os joelhos e tirar exigência do alongamento excessivo das pernas, porque a flexão das pernas não trará nenhum prejuízo físico e continuará possibilitando os benefícios principais de uma postura de flexão à frente, como a estimulação do apana (a vitalidade que ajuda no funcionamento dos intestinos e outros órgão de excreção do corpo) e alongamento da parte de trás de todo o corpo de modo saudável. Nunca, jamais, uma pessoa deve ser adaptada a um vinyasa pré-estabelecido, porque isso não faz o menor sentido em yoga.

De modo geral, o que se entende hoje em dia com o nome de vinyasa é simplesmente a conexão da respiração com o movimento do corpo, o que é um entendimento bastante simplório à luz do que foi dito muito resumidamente aqui. Além do mais, hoje em dia muita gente prática ‘vinyasa-yoga’ em séries fixas de posturas, o que vai de encontro ao conceito de vinyasa como aquilo que, levando em consideração as capacidades particulares reais de uma pessoa, tem a função de dar algum benefício físico, energético e mental preservando sempre a experiência de estabilidade e conforto.

Esse texto sobre yoga foi escrito pela equipe do Vedantaonline.

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