A dona mídia e o Yoga

 

Entrevista com o professor Pedro Kupfer
Publicado originalmente no Yoga.pro em 09 de setembro de 2010.

1 – O Que é Yoga para você?

Não posso dar uma opinião pessoal. O que posso sim é lhe dar opiniões pessoais sobre o que o Yoga não é à luz da peculiar situação que ele está vivendo hoje. Para definir o Yoga, é necessário fazer isso desde dentro dele. Ou seja, ver o que a tradição diz que o Yoga seja.

Nesse sentido, Yoga é uma visão da existência humana, e o método peculiar que transmite essa visão. Não é uma escola de filosofia, não é um conjunto de técnicas, não é uma ginástica nem uma religião.

Yoga é uma atitude que você cultiva, não uma ação que você faz. A visão do Yoga diz que você já é a felicidade que possa estar buscando. Você já é um ser humano completo. Esse ensinamento, que poderia ser chamado de autoconhecimento, vem sendo transmitido geração após geração numa corrente chamada parampará, de professor a estudante.

2 – Como você vê a relação da mídia com o Yoga?

Muitas pessoas (e a quase totalidade dos arautos da mídia se incluem nesse grupo) pensam que o Yoga seja uma espécie de exótico exercício indiano. O tratamento que o Yoga recebe na mídia é acorde à visão que as pessoas que fazem a mídia têm dele.

Se eu, como jornalista, achar que Yoga é ginástica, o que possa escrever ou dizer sobre ele estará permeado por essa ideia. Não acho que a mídia como um todo esteja equivocada, nem que esse erro seja proposital: ela está apenas amplificando um erro de visão que é lugar comum na nossa sociedade.

Naturalmente, os meios de comunicação buscam funcionar como um espelho onde se refletem os fenômenos sociais. Nesse sentido, sabemos que atualmente o Yoga está recebendo bastante atenção da parte da sociedade e obviamente a mídia deve noticiar isso.

Vale o esclarecimento da questão anterior: o Yoga não é uma ginástica, nem existe para combater o estresse ou aumentar a qualidade de vida. O propósito do Yoga está definido em um número de antigos textos, chamados Upanishads, e não mudou desde então. Naquela época não havia estresse nem necessidade de gerenciá-lo, e qualidade de vida não era uma preocupação.

3 – Quais são os reflexos da relação da mídia com o Yoga?

Vale o dito anteriormente: atualmente, o Yoga é visto em muitos casos como um exercício para manter a saúde, melhorar a qualidade de vida e gerenciar o estresse. Esse fato, reportado pela imensa maioria dos meios de comunicação, não afeta em nada o verdadeiro propósito do Yoga, nem evita que aqueles que buscam suas práticas, conhecimento e modo de vida, possam realizar seus propósitos.

Para aqueles para quem o Yoga é um exercício, ele até que funciona bem como exercício. Para aqueles que buscam alguma coisa mais acorde com o propósito original, a liberdade ou iluminação, o Yoga responde igualmente bem.

Isso significa que não devemos nos precipitar e dizer que quem busca melhorar a qualidade de vida não teria direito de chamar de Yoga aquilo que pratica: acredito que o Yoga dê para cada praticante aquilo que ele esteja preparado para receber.

4 – Você acha que a atividade do professor de Yoga pode ser chamada de profissão?
E como você vê essa profissão?

Teríamos que definir a palavra profissão. Se formos pensar que esse termo define uma ocupação específica cuja correta execução exige certo conhecimento, treino e habilidade por parte da pessoa, deveríamos admitir que sim, a atividade de ministrar aulas seja uma profissão como outra qualquer.

Têm muitos professores de Yoga que não hesitam em definir a si mesmos como “profissionais”. As associações da categoria defendem o status da profissão e lutam pelo seu reconhecimento como tal.

Pessoalmente não gosto muito desse termo, pois vejo a atividade de ministrar aulas como uma extensão da dedicação do praticante maduro ao seu caminho individual no Yoga. Nesse sentido, o Yoga não seria uma profissão como as demais, senão uma consequência natural da dedicação do yogi ao seu processo de autoconhecimento.

Noutras palavras, não basta eu ser hábil na execução das técnicas e ambicioso nos meus propósitos e metas “profissionais”. Se eu não amar o que faço, se não tiver respeito pela tradição de ensino, se não tiver um compromisso veemente com o objetivo do Yoga, que é a liberdade, não serei um professor sincero, mesmo que possa me considerar bem sucedido desde outros pontos de vista, como ter retorno financeiro pelas aulas que ministro.

5 – Como você vê o Yoga no Ocidente?

Da mesma forma que o vejo na Índia. Muita gente pratica Yoga hoje em dia: alguns por moda, outros por conveniência, outros por ambição pessoal ou para satisfazer fantasias exóticas. Apenas uma minoria compreende o verdadeiro espírito do Yoga e o pratica com a atitude devida. Isso acontece em todos os lugares, não apenas no Ocidente.

Não diria que o Yoga sofreu algum tipo de distorção grave apenas na presente época, nem que essa distorção tenha acontecido apenas quando o Yoga saiu do meio cultural onde nasceu, a espiritualidade indiana, e chegou nesta parte do mundo.

Antigos textos, como o Dattatreya Yogashastra ou o Kularnava Tantra, já advertem sobre o perigo das distorções, bem como recomendam evitar professores mal-intencionados e incompetentes. Isso nos mostra que distorções sempre existiram.

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