Sustentabilidade: O Caminho Essencial para o Yogue Contemporâneo

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Em tempos de desordens climáticas, escassez de água e desenvolvimento social desorganizado nos deparamos com a necessidade de mudar nossos hábitos a partir de uma nova perspectiva, somando forças para um melhor gerenciamento dos recursos naturais e humanos. Atualmente vemos ações em total descompasso com idéias sustentáveis. Ações que agridem tanto o meio ambiente como o próprio ser humano, em geral aquele que está em alguma situação de desvantagem.

Ao mesmo tempo, vemos, surgindo em todas as partes do planeta, milhares de novas formas de se pensar o desenvolvimento, o consumo, os excessos, enfim, a forma como nossa sociedade se estruturou, para que o crescimento seja visto como algo somente possível no coletivo, em uma forma em que todos ganham. Uma sustentabilidade para além do discurso comum “recicle seu lixo”, “troque o carro pela bicicleta”,etc. Muito além disso, idéias mais profundas e consistentes. E como a visão do Yoga pode nos ajudar nesse processo?

Primeiro temos que analisar a nossa postura frente ao modelo de organização atual, verificando até que ponto devemos segui-lo. Para fazer essa análise, vamos usar um dos śāstras do Yoga, a Isha Upanishad. No seu primeiro verso é dito:

“O Ser Infinito está presente nos corações de todos.
O Ser Infinito é a suprema realidade.
Regojizemo-nos nele através da renúncia.
Não cobiçes nada, pois tudo ao Ser pertence.”

Já no início do verso se reforça a própria visão do Yoga de que somos todos manifestações divinas, feitos do mesmo material do Criador. Sendo assim, não estamos separados um do outro e de nada no Universo e isso já nos dá a base para não violentar nada nem ninguém no Universo inteiro, já que somos parte do mesmo corpo divino. Como conseqüência, trazemos consciência para cada uma de nossas ações, pois percebemos que ao ferir o ecossistema e qualquer indivíduo que esteja incluído no nosso campo de ação, estamos ferindo a nós mesmos.

Essa visão de unidade também nos preenche retirando a necessidade do acumulo. A idéia de que já somos completos, a suprema realidade como diz o texto, ainda que não bem absorvida, nos faz mudar o nosso foco deixando a busca por completude através de conquistas materiais pela busca por uma mudança da perspectiva de como enxergamos a nós mesmos.

Essa mudança de visão casa perfeitamente com a segunda parte do verso que nos oferece a opção de renúncia. A renúncia não como a restrição dos desejos ou a todas as formas de consumo. Mas, se temos a certeza de que os bens materiais não nos torna mais completos, conseguimos entender que, fora aquilo que é extremamente necessário para se manter a vida humana, pode nos faltar qualquer coisa que permanecemos felizes e completos. Essa consciência é essencial para o caminho do Yoga, para uma vida com mais sentido e para se pensar em sustentabilidade. Porque o Universo é rico, vivemos em uma país com muitos recursos naturais, mas se eu consumo muito mais do que o necessário, certamente irá faltar para alguém. Isso não significa que vamos nos retirar para a floresta e passaremos a viver como os homens das cavernas, sem consumir absolutamente nada. Mas o fato é que a sociedade se excedeu nesse sentido e vemos inúmeras anomalias em relação a forma como a sociedade de consumo de estruturou. E, a partir do momento em que optamos pelo caminho do Yoga ou decidimos nos tornar pessoas mais conscientes se torna indispensável repensar nossa forma de consumir.

Em resumo, o caminho que nós yogues percorremos deve estar pautado por essas três idéias que são conseqüência desse novo olhar sobre a nossa verdadeira realidade: não ferir qualquer ser manifesto da Natureza, o crescimento coletivo e a redução do consumo. E essa é a base de qualquer pensamento sustentável, e quando estamos convictos dessas idéias, as mudanças são naturais e deixamos hábitos antigos por simplesmente não fazerem mais sentido pra nós. A exemplo de Árjuna, no grande épico Mahabhárata, nós yogues contemporâneos não podemos nos recusar a entrar nessa luta. A luta pela defesa de uma vida harmônica em conjunto, assumindo uma posição ativa e não violenta na defesa desses ideais.

CARINA UCHOAS
Satya Escola Yoga Volta Redonda

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