Por que Ganesha cavalga um rato?

Se você visitar a Índia, verá freqüentemente imagens do deus Śiva cavalgando um touro branco, Viṣṇu voando sobre uma imensa águia ou Sarasvatī atravessando o universo num belo cisne. E, certamente, o que mais irá chamar sua atenção, é o fato de que Gaṇeśa, o deus com cabeça de elefante, cavalga um rato. Você poderá se perguntar: mas porquê um rato?

Esses animais que aparecem junto aos deuses hindus são seus veículos divinos chamados vahanas em sânscrito. Os vahanas são expressões, aliados ou formas de energia, que chegam onde os próprios deuses não conseguem chegar. Mas com Gaṇeśa é diferente.

Gaṇeśa está associado na Índia com a boa sorte e a prosperidade. Porém, na tradição do Yoga, ele é muito mais do que isso. Os Purāṇas são uma extensa coleção de crônicas de deuses, heróis e sábios da Índia antiga. Eles foram elaborados pelos sábios de antigamente para nos ensinar através de metáforas. Algumas das histórias que encontramos neles têm como objetivo nos ajudar a lembrar algumas lições essenciais na vida espiritual.

A história que segue, e que responde à pergunta do título, é uma das mais importantes dos Purāṇas. Ela narra a batalha que o deus-elefante travou contra o demônio Gajamukha. Gajamukha era um yogi que, devido a austeridade de suas práticas espirituais, tinha se tornado tão poderoso que era considerado invencível. Infelizmente, como acontece com alguns yogis, perdeu-se no caminho e acabou utilizando sua energia espiritual para fazer o mal. As coisas ficaram críticas para a estabilidade do mundo quando ele expulsou os deuses do céu. Estes, aterrados e, sem poder fazer nada para deter o demônio, chamaram Gaṇeśa para que os ajudasse.

No início do confronto, o deus-elefante não pôde fazer muita coisa, pois Gajamukha era realmente poderoso e nenhuma arma utilizada contra ele conseguia atingi-lo. Eles se digladiaram nos céus por milênios, esgotando suas energias, sem que nenhum dos dois lutadores conseguisse sobrepujar o outro. No fim, Gaṇeśa fez um grande sacrifício e arrancou sua própria presa direita, arremessando-a ao demônio com tanta força concentrada que este ficou seriamente ferido. Ao mesmo tempo, Gaṇeśa lançou-lhe uma maldição, condenando-o a transformar-se num rato. O sortilégio funcionou e Gajamukha virou um roedor. Imediatamente, Gaṇeśa saltou sobre o rato e começou a domá-lo.

Qual é a lição espiritual escondida nesta história esquisita? Neste mito, o deus-elefante representa a Consciência. O elefante simboliza o imenso poder dessa Consciência, que é a essência de cada ser humano. Com sua força inigualável, o elefante é capaz de realizar proezas que nenhum outro animal conseguiria fazer.

No entanto, ele dificilmente irá machucar alguém. Ao mesmo tempo, este animal é muito inteligente, sensível, protetor e solidário com seus companheiros. Essas qualidades, aliadas à sua índole pacífica e amorosa, o tornam um ótimo símbolo da Consciência.

Narrado por Pedro Kupfer

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