Sentidos fora de foco

Os cinco sentidos são nossas janelas para o mundo. Através do tato, olfato, audição, paladar e visão recebemos impressões do que está a nossa volta e somos impelidos a agir e interagir com aquilo que há de externo a nós.

Não controlamos o que entra pelas janelas dos sentidos. Quando estamos em casa, lendo calmamente, e o vizinho liga uma música alta, o som penetra nossos ouvidos. Ao colocarmos um alimento na boca, não temos outra escolha a não ser sentir o sabor. E essa inevitabilidade dos sentidos permite que o mundo exterior esteja, a todo momento, nos adentrando o corpo e a mente, conduzindo nossas próximas ações (como parar na calçada diante de um carro que se aproxima) ou estimulando pensamentos (como quando o cheiro de chuva nos leva à infância).

Nos momentos em que nos dedicamos à prática, seja durante os āsanas, prāṇāyāmas ou meditação, a tomada do corpo e da mente pelo mundo exterior nos faz perder a concentração. Assim, é necessário o desenvolvimento de certa abstração dos sentidos, em sânscrito, pratyāhāra, para que, em vez de nos tirar o foco, fiquem os sentidos desfocados.

Pratyāhāra é o quinto anga, ou parte, do Yoga, de que trata o Yoga Sūtra de Patañjali. Literalmente, o termo diz respeito a alimentar a mente de forma adequada, uma vez que ahara significa “alimento”. O tal alimento a que se refere o termo são as impressões sensoriais que entram pelas janelas dos sentidos – ou seja, o que vem de fora para dentro.

Os sūtras que Patañjali dedica ao pratyāhāra estão no final do segundo capítulo:

No estado de pratyāhāra, os sentidos, retraindo-se dos objetos exteriores refletem a natureza da consciência. ||54||

Isso traz o total controle dos sentidos. ||55||

Patañjali, portanto, define a abstração dos sentidos como um estado. Só que para se atingir esse estado é preciso prática, e é aí que entram as séries de āsanas e prāṇāyāmas feitos com atitude tranqüila e atenta. Através de uma prática adequada, desenvolvemos pratyāhāra – a capacidade de sermos seletivos quanto ao que o mundo nos envia de fora, ou o poder de nos concentrarmos naquilo que está dentro, a consciência.

No Mahabharata, épico de que a Bhagavad Gītā faz parte, é dito que a mente deixa de se distrair pelos objetos a ela externos assim como a tartaruga recolhe seus membros fechando-se em si mesma. Portanto, deixar-se levar pelos sentidos e por todas as sensações físicas e emocionais que eles trazem, ensina a tradição, pode ser uma opção.

Por Julia Rebuzzi

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